A REGULAGEM QUE NÃO DÁ CERTO.

 O motivo deste texto é para explicar o que acontece com algumas guitarras, violões e contrabaixos da atualidade, que não podem ser regulados de maneira correta, devido a má fabricação, esse é um assunto extenso, e venho a algum tempo pensando em escrever sobre isso,  o meu trabalho vem sendo dificultado por estes instrumentos há alguns anos, agora estão abusando do direito de enviar para o Brasil instrumentos que não funcionam plenamente, por isso resolvi escrever sobre este assunto, para alertar aos músicos.
 Não vou citar marcas, que fique claro que não tenho nada contra o negócio de ninguém, e muito menos contra a fabricação de instrumentos mais acessíveis para o grande público, acho ótimo que todas as pessoas consigam comprar instrumentos musicais, só gostaria que os fabricantes de instrumentos em massa tivessem alguém para ver o resultado final de seus produtos, e reprovar a venda ao público de alguns, antes que esses saiam das fábricas, pois não são instrumentos, são um complexo kit de problemas para  músicos e luthiers.
Trastes desalinhados no meio da escala de uma guitarra.
 Alguns instrumentos fabricados nesses lugares, nem ao menos fazem sua função básica que é tocar, a grande maioria vem com defeitos de fabricação gravíssimos, o serviço de conserto neles seria praticamente fabricar um instrumento novo.
 Nos últimos anos, cada vez mais aparecem em minha oficina instrumentos em sua maioria de origem asiática, esses instrumentos muitas vezes idênticos aos instrumentos de qualidade, chegam com muitos defeitos grosseiros como: braços fora de ângulo, pontes fora do lugar correto, cavaletes com medidas erradas, trastes desalinhados, cavidade do braço com medida errada, escala plainada de maneira errada, espessura errada na escala, espessura errada no braço, cavidade do tirante feita de maneira errada, trastes com pontas cortantes,  ângulo do braço errado, relação corpo braço totalmente errada, etc, etc, etc,etc,etc,etc,etc.
 Nos instrumentos fabricados até meados da década de 90 eu levava mais ou menos uma hora para deixar um instrumento regulado, para quem não sabe a regulagem básica de uma guitarra ou contrabaixo consiste em fazer os seguintes serviços: regular o tirante, regular os carrinhos, regular o osso da pestana, limpar a escala, polir os trastes, fazer a regulagem das oitavas e dar uma limpeza geral no instrumento, além disso, eu ainda verifico o ângulo do braço e a parte elétrica para ver se existe algum problema, isso como prevenção.

 Era um serviço muito tranqüilo de se fazer, normalmente as guitarras saiam de minha oficina com a afinação perfeita e cordas muito baixas, e o cliente extremamente satisfeito.
 A partir do ano de 2003 a invasão dos instrumentos asiáticos já era totalmente sentida pelo mundo inteiro, esses instrumentos dominavam totalmente a venda e fabricação em massa, forçando as fábricas locais a fechar ou se render a ter uma linha fabricada também na Ásia para que pudessem sobreviver aos preços absurdamente baixos desta concorrência.
 A partir daí em minha oficina a maioria absoluta de guitarras e contrabaixos para serem regulados era de origem asiática e o número de clientes cresceu. Isso foi bom ou ruim?
 Eu respondo que foi péssimo, normalmente para deixar uma guitarra ou contrabaixo desses com condição de serem tocados, passei a levar mais de 5 horas para fazer a regulagem!!! 
 Muitas vezes chego a levar um dia de trabalho para fazer com que uma guitarra dessas possa ficar um pouco melhor para o cliente, mas infelizmente isso nem sempre é suficiente para que a regulagem fique perfeita, as horas necessárias para regular o instrumento aumentaram demais , sobrecarregando minha oficina.
Trastes totalmente desalinhados no fim da escala de uma guitarra, suprimindo notas.
 As guitarras são os instrumentos que mais sofrem com esta fabricação ruim, pois possuem várias peças que necessitam de combinações corretas de corpo, braço, ângulos e trastes, se estas combinações estiverem erradas o que teremos é uma péssima guitarra, um instrumento difícil de ser regulado, afinado ou só poderá ser regulado de uma maneira desconfortável para o músico.
 As guitarras feitas em linha de montagem na Ásia normalmente  tem os trastes desalinhados (altura diferente em vários trastes), os trastes são colocados por máquinas que realizam este serviço sempre empregando a mesma força, a madeira da escala por sua vez pode ter alguns pontos mais macios em sua estrutura, pois só para lembrar , a madeira é uma matéria prima complexa com muitos pontos que devem ser observados , na mesma prancha de madeira, tirada de uma árvore de jacarandá indiano por exemplo, poderemos ter características diferentes de densidade, cor, entre outras coisas, então é comum que os trastes colocados pelas máquinas acabem entrando um pouco mais nessa mesma madeira em alguns  pontos que estejam com características um pouco diferentes do geral.
 É necessário que eu avise ao cliente que ele tem uma guitarra com problemas graves e isso gera um incômodo para mim, pois o cliente pensa quando digo que provavelmente o instrumento  terá que passar por uma retífica de trastes (para poder melhorar um pouco os trastes desalinhados), que eu estou querendo ganhar seu dinheiro , ele pensa assim com toda razão  porque muitas vezes tem apenas alguns dias que ele comprou o instrumento, e normalmente esses instrumentos ainda possuem o “milagroso tirante ajustável” que na cabeça das pessoas resolvem defeitos grosseiro de fabricação, como os empenos absurdos e as torções laterais, as pessoas acham que comprando um instrumento novo, vão sair tocando ou vão apenas precisar regular, isso não acontece hoje em dia, a não ser com marcas consagradas que não são feitas na Ásia.
 Quando digo ao cliente que o instrumento não pode ser regulado da maneira que ele  gostaria, é nítida a sua decepção, mas não posso fazer outra coisa, a não ser falar a verdade.
 Eu poderia enganar os clientes e não falar sobre os problemas reais de seu instrumento, mas quem me conhece sabe da minha ética, e que não deixo de falar a verdade sobre os instrumentos, mesmo que isso signifique a perda de dinheiro para mim.
 Tenho pensado seriamente em parar de regular guitarras e contrabaixos, já que financeiramente eles não compensam mais,  isso em relação ao grande trabalho que atualmente dão.
Contrabaixo com pontas cortantes nos trastes.
 Então fica aqui um alerta, cuidado ao adquirir determinados instrumentos, eles possuem muitos defeitos ocultos, não se guie só por uma aparência bonita, antes de comprar, toque por alguns minutos (ou horas se for possível) e verifique se o instrumento está em condições, se as notas estão saindo como deveriam, se ele é confortável para o seu modo de tocar, e lembre-se, um instrumento ruim pode prejudicar seriamente o seu aprendizado.
 Espero sinceramente que esses fabricantes melhorem seus instrumentos para que os músicos possam ter o direito de tocar em algo que funcione plenamente, como deveria acontecer sempre.
Joelson Oliveira
 Luthier